Revista ENTRELIVROS nº3
06/01/2005
 
Carlos Heitor Cony

Por Josélia Aguiar

“Ainda não encontrei a profundidade”

capa da Revista EntreLivros nº3
capa da Revista EntreLivros nº3

O sopro veio da liturgia antiga. Messa para o papa Marcello é o nome do livro que Carlos Heitor Cony, 79 anos, tenta escrever há mais de 40. Quem o inspira é Palestrina, compositor sacro do século XVI, cuja obra mais famosa é a Missa papae Marcelli. Anunciado tantas vezes, o romance, que já tem cerca de 70 páginas, está longe da conclusão. A demora é mais surpreendente quando se sabe que uma característica de Cony é a rapidez (ele já fez um romance em nove dias e gasta nas crônicas diárias só o tempo da digitação).

O problema é que Cony – que, depois de pensar em se dedicar à vida monástica, virou ateu e hoje é um agnóstico devoto de Maria – está às voltas com os mistérios da fé. Enquanto não encontra resposta para suas dúvidas, o livro continua empacado. Religião e literatura se misturam. Cony compara sua prosa à pintura bizantina – tem altura e largura, mas não fundo, diz. Na música, o equivalente seria melodia e ritmo sem o contraponto que gera a polifonia, uma contribuição de Palestrina. Com Messa, de que EntreLivros publica um trecho inédito, Cony espera atingir esse fundo, a profundidade que diz não ter ainda alcançado em toda a sua obra.

ENTRELIVROS – Que livro mais marcou a sua vida ou o senhor considera o primeiro que o impressionou?

Carlos heitor CONY – O primeiro livro que me impressionou mesmo e me chamou a atenção para a literatura, aliás, não para a literatura, porque eu não sabia o que era isso ainda, foi Memórias de um sargento de milícias [de Manuel Antônio de Almeida]. Eu devia ter uns dez anos. Até hoje é um livro importante para mim. Eu fiz uma adaptação para a [editora] Scipione, há dez anos, e coloquei todos os cacos que quis, tal a maneira com que me identificava. Eu digo isso no prefácio, claro. Gosto da linguagem, da gozação dele, a ótica do carioca de levar a vida. É um livro de costumes. No subsolo, é a vida como ela é. Nele está uma das melhores personagens femininas da literatura brasileira – a comadre, que nem nome tem. As duas melhores personagens da literatura brasileira são Capitu, de Machado de Assis, e essa comadre. Quando ela colocava o xale e saía à rua, alguma coisa acontecia. Na cena em que ela vai dar a notícia de uma morte e diz apenas: “Nunca fez mal a ninguém”. É gênio! Está entendendo?

EL – E os maiores personagens masculinos da literatura brasileira?

CONY – Quincas Borba é o maior. E correndo por fora, muito próximo, o Brás Cubas. Dom Casmurro não, esse é um chato. Só vale ali a Capitu. Aliás, as histórias de Machado são muito ruins, fracas. O bom do Machado são os cacos. Aquela frase final de Brás Cubas, “não leguei a ninguém a miséria da condição humana”, não é romance, não é ação. Mas é genial. As histórias são fraquíssimas, banais. Nesse ponto, as histórias de José de Alencar são muito melhores. Mas faltou a José de Alencar esse troço que entrou fundo, como nos livros de Machado de Assis.

EL – Por que o senhor considera Pilatos (1974) a sua obra maior? E por que Quase memória (1995), que o senhor não considera tão seu, é o de maior sucesso?

CONY – Quase memória já vendeu cerca de 400 mil livros. Eu não tenho nada para falar para 400 mil pessoas. É um equívoco. Eu falo para um mundo reduzido. Stendhal dizia que só queria ter 100 leitores. Eu gostaria de ter 200. Então, 400 mil leitores é um absurdo, é um equívoco. É um livro que qualquer um escreveria, o pessoal reclama dizendo que é falsa modéstia, mas não é. Qualquer um escreveria, melhor ou pior, ou até mesmo equivalente. É um livro que não é meu. Saiu depois de 23 anos em que estive parado, e eu estava com computador novo. Mila, minha cachorra, estava doente, descadeirada, e eu ficava ao lado dela. No dia em que ela morreu eu coloquei o ponto final. Se você reparar, as duas últimas páginas são um flashback do livro. O livro foge do meu gênero. Tem alguma coisa minha, um humor meio disfarçado. Não é que eu repudio o livro, mas ele não me representa. O meu livro mais vendido é, na verdade, Uma história de amor (1978). Esse vendeu o dobro, disparado. Se eu tivesse oportunidade, gênio, pra escrever Dom Quixote [de Miguel de Cervantes], A divina comédia [de Dante Alighieri], a obra toda de Shakespeare, a obra toda de Machado de Assis, e do outro lado da balança estivesse Pilatos, eu ficaria com Pilatos. Não por ser melhor. Mas porque sou eu. Se eu escrevesse Dom Quixote, teria a eternidade garantida, enquanto houvesse homem na face da Terra seria lembrado. Mas não seria eu. Pilatos sou eu, inteiro. Não quero dizer que é um livro perfeito, mas é um livro que me expressa.

EL – Pilatos foi um livro tão importante que, segundo declarações suas, em várias oportunidades, o senhor quase desistiu da literatura porque achava que não tinha mais nada a dizer?

CONY – Depois que escrevi esse livro, passei 21 anos sem escrever um romance. Só fui voltar a escrever por causa da Mila. A doença dela me colocava a noite toda diante do computador, e eu estava maravilhado com o computador. Nesse tempo que passei sem escrever, em parte, sinceramente, foi por preguiça. Escrever a máquina! Meu primeiro romance eu escrevi 11 vezes. Sabe lá o que é isso? Eu não agüentava mais. Eu sou péssimo datilógrafo. Escrevo muito depressa, e na pressa eu engulo frases inteiras. Se você olhar um original meu, você vai entender. Eu usava espaço seis para poder escrever por cima. Meu apelido no jornal era “mercúrio cromo”. Meus textos tinham mais vermelho que preto. Escrevo muito rápido. Hoje, com computador, se troco uma letra, ou tenho dúvida se é com “s” ou com “z”, eu vou tentando até dar certo. Crônicas eu só gasto o tempo material de fazer.

EL – Com os romances, a sua disciplina é diferente? Vários livros seus foram escritos com rapidez, não?

CONY – Eu também escrevo depressa os romances. Meu segundo romance [A verdade de cada dia, 1957] eu escrevi em nove dias. Quase memória eu fiz em 23 dias. Pilatos demorou um pouco mais porque eu viajei. Estava recém-casado, no meu terceiro casamento [ao todo, Cony casou-se seis vezes], e fui para a Europa. Quando voltei, precisava terminar o livro. A parte final foi na base do cuspe. Eu tinha de terminar.

EL – O senhor anuncia um livro há muito tempo, e não terminou. O que acontece?

CONY – Quando comecei a escrever, imaginava fazer dez livros, com o título de “Os sub-homens”. Górki tem um livro chamado Os ex-homens, que eu acho genial. Mais ou menos inspirado nele, eu faria “Os sub-homens”, porque todos os meus personagens são sub-homens. Não tenho nenhum personagem que se possa considerar um homem. Seria uma decalogia. Meu editor na época, Ênio Silveira, queria um livro por ano, até a editora ser destruída fisicamente [a editora Civilização Brasileira, durante o regime militar]. Mas eu publiquei um livro por ano. Quando escrevi Informação ao crucificado, pensei que o livro estava um pouco incompleto. Aquela frase do final, “Deus acabou”, alguns dizem que copiei de Nietzsche, que disse que Deus morreu. Eu não digo que Deus morreu. Eu digo que Deus acabou. Uma coisa é morrer, outra é acabar. É um processo. Existe um antes e pode existir um depois. Eu pensei em fazer o mesmo seminarista de Informação ao crucificado continuar e virar padre, sem fé. Seria um segundo livro. Escrevi muitos trechos, dois ou três viraram contos. Esse livro eu canibalizei. Quando me pediam, eu mandava partes inteiras. Daí eu pensei no “Messa”, que seria a continuação dos dois. A ação dele, se é que se pode falar assim, porque meus livros não têm ação, está na minha cabeça. Já fiz umas 70 páginas.

EL – Por que é tão difícil terminá-lo?

CONY – Já pensei várias vezes em continuar. Mas antes eu tenho de chegar a algumas conclusões pessoais sobre esse problema religioso, que me preocupa muito. Esse livro está anunciado desde 1968. O título me veio perfeito. Inclusive é um título anticomercial. E ficaria assim, meio em italiano. A música até Palestrina [Giuseppe Perluigi da Palestrina, compositor sacro do século XVI] era bidimensional, como a pintura bizantina, oriental. Só tinha altura e largura. Não havia perspectiva, que só veio a surgir com Giotto e Da Vinci, no Renascimento. E foi então que a pintura se tornou tridimensional, com altura, largura e profundidade. Com a música foi assim. Até Palestrina, a música só tinha melodia e ritmo, não existia contraponto. Era bidimensional também. Foi ele que tornou a música tridimensional, o que se chamou polifonia. Palestrina tem várias missas, e talvez a mais famosa, e a que expressa mais essa dimensão, é a Messa para o pappa Marcello, que foi o papa com “mandato” mais curto da história. Dirá você: o que isso tem a ver com meu livro? Até então, minha obra – não falo da literatura universal, mas da minha obra – só tinha altura e largura. Faltava fundo. Até hoje não encontrei esse fundo. É uma impossibilidade minha. Se eu encontrasse esse fundo, eu tinha feito esse livro há muito tempo. Eu tenho a altura e a largura, como nos outros livros. Só não tenho fundo. Como vou adquirir isso, na idade que estou? Apesar da insistência com que faço literatura – boa essa palavra, né? insistência! –, ainda não encontrei esse fundo. Eu podia fazer 200 mil livros iguais, mas nenhum como esse. Pode ser que encontre tempo, mas talvez eu não encontre modo.

EL – Por falar em papa, o senhor escreveu uma crônica sobre João Paulo II, pouco depois da morte dele, comparando-o a Aleijadinho. O senhor dizia que, ao criticá-lo por condenar o uso da camisinha, os críticos não viam o gênio.

CONY – O papa não tem poder temporal. Não pode obrigar ninguém a não usar camisinha. Pode aconselhar, ou obrigar os católicos lá dele. Quem não quiser ser católico vai embora, como eu fui. Eu saí do seminário com 18 anos, Deus acabou, e o papa acabou também. Se ele me proibir de alguma coisa, eu dou uma banana para ele. E continuo usando o que quero. Isso é o conteúdo. Agora a forma. Carpeaux [Otto Maria, crítico literário] levou um amigo austríaco para conhecer Ouro Preto. Na volta, passou por Congonhas do Campo e mostrou para ele a estátua de Aleijadinho que tem lá, a obra-prima dele, o profeta Daniel. Aleijadinho nunca tinha visto um leão na vida. Na época, não havia litografia, cinema, não havia informação. Era um homem que nunca saíra do Brasil. Como ele ia imaginar um leão? Fez então um cachorro com cara de macaco. O Aleijadinho fez uma besteira, o crítico ficou horrorizado e não viu aquela beleza apontando pro céu, a escultura em pedra sabão, não viu a grandeza. E criticou um detalhe. Criticar o papa por proibir a camisinha é uma besteira.

EL – Faltam melhores argumentos para criticar a igreja?

CONY – A imprensa vive muito comprometida com a própria época. Que sociedade temos hoje? É uma sociedade ideal? É o estágio superior da humanidade? Não é, pelo contrário. Se oito mil anos de civilização, inclusive com cristianismo, judaísmo, islamismo, protestantismo, marxismo, produziram essa sociedade, não temos de nos curvar a ela. A igreja não pensa em sociedade, e sim em humanidade. A sociedade é mutável, houve a medieval, a moderna, a renascentista. Desde que houve dois homens juntos começou a humanidade. Se a igreja tivesse falado para uma sociedade, não teria existido mais. O dia que fizer o gosto da sociedade, deixa de existir.

EL – Se o senhor tivesse continuado no seminário, teria se tornado um cardeal?

CONY – Me lembrei do meu discurso, quando tomei posse na Academia [Brasileira de Letras], na cadeira de Aníbal Freire, que foi diretor do Jornal do Brasil, chegou a ministro. Era um bom homem, vestido sempre de preto, parecia um personagem de Eça de Queiroz. Era da cadeira três, que hoje é minha. Ou melhor, que hoje eu ocupo, minha não é [risos]. E eu por acaso o conheci, porque meu pai era do Jornal do Brasil e eu ia muito à redação. Meu pai me levou à redação, falou que eu ia ser padre, e daí Aníbal Freire veio até mim, botou a mão no meu ombro, e falou: “Você vai ser cardeal”. E no meu discurso falei: “Aníbal Freire era um bom homem, mas um péssimo profeta”. Se eu tivesse me ordenado padre, talvez eu não tivesse largado a batina. Eu não tenho muita inclinação a fazer essa traição. Trair, só traí mulheres. Talvez eu ficasse, a contragosto. Seria mais ou menos como o padre que eu pintei em Paixão segundo Mateus. Um padre sem fé, sem disciplina, mas levando o barco. Mas fazer a carreira mesmo, eu não teria condições. Não se pode criar incompatibilidades. E eu crio incompatibilidades com todo mundo. Tem gente que gostaria de gostar de mim, mas não gosta, porque eu sou um incompatível [risos].

EL – A sua obra é, em grande parte, composta por livros de tom memorialista e por livros de crônicas, dois gêneros considerados menos nobres pela crítica. O senhor concorda que ambos são “menos” literatura?

CONY – A crônica é um gênero essencialmente jornalístico, mas que, por um desvio, uma perversão editorial, está virando livro. Eu digo isso porque minhas crônicas volta e meia viram livros. Não é subliteratura, eu diria que é algo à margem. Eu comparo o cronista a um peixe de aquário. Vive num ambiente iluminado, bonitinho. Você não pode deixar de olhar um aquário, nem que seja um segundo. Tem gente que fica olhando horas e horas. O cronista é isso. Tem de ter esse palco iluminado. É um clown. Um romancista, não. É um peixe de água profunda, onde não chega a luz do sol, é monstruoso, devora os outros. Um peixinho de aquário não devora os outros. Alguns são briguentos, mas a maior parte, não. O romancista vive lá no fundo e devora o que tem na frente. Mas tem uma coisa: ele tem o oceano todo.

EL – E qual o lugar das memórias?

CONY – A memória é considerada gênero menor criticamente. Mas aí entra muita gente, sobretudo José Lins do Rego, na literatura brasileira, e Marcel Proust, na literatura universal. Concordo que o memorialismo é um gênero menor. Mas eu me pergunto o seguinte: ninguém pode fazer um rol de roupas que não se traia um pouco. Pela própria quantificação e qualificação das suas roupas. É como você analisar o dono de uma casa pela lata de lixo. Você pode saber se ele comeu sardinha, o tipo de óleo que usa, se tem remédios. Você pode analisar uma pessoa pela lata de lixo, e a memória é uma grande lata de lixo, e autêntica. Porque, eventualmente, numa lata de lixo, você pode colocar coisas que não são tuas, na memória não. Uma pessoa pode chegar na minha casa, levar um uísque, colocar no meu lixo, e eu nunca bebi daquele uísque. Mas memória é intransferível. Você não pode escrever dez linhas sem que você se traia de uma forma ou outra. O que é isso se não você se confessar? Não foi à toa que Flaubert disse “Madame Bovary c´est moi”. Ele se traiu ali, só ele sabe o truque dele, ele é o autor e sabe onde se traiu. O Machado de Assis, você dirá, jamais se traiu. Pois foi talvez o que mais se traiu e soube tapear. Porque a literatura, no fundo, é tapeação.

EL – Sobre Machado de Assis, o senhor está se referindo à tese que o senhor tem de que ele teve um caso extraconjugal com a mulher do escritor José de Alencar e era pai de Mário de Alencar?

CONY – Machado de Assis foi a grande ameaça que tive para entrar na Academia [risos]. Alguns da Academia não gostaram de eu falar essas coisas. Perdi o voto do meu amigo Josué Montello, que no dia da minha posse entregou a espada para mim. O mistério de Machado de Assis: como um homem que nunca freqüentou escola, nasceu no Morro do Livramento, filho de uma lavadeira, foi menino de recados, de repente, numa época em que todo mundo só falava francês, que ninguém conhecia literatura inglesa, só francesa, como esse homem traduziu Edgar Allan Poe? Em Paris, quem traduziu “O Corvo” foi Mallarmé e Baudelaire. Em Portugal, Fernando Pessoa. Então, um poema de um autor inglês bêbado...Onde ele aprendeu inglês? Essa é a primeira pergunta. Em qualquer sebo, você vai encontrar os diários de Humberto de Campos, um livro ressentido, escrito em 1934, com ordens para ser publicado somente 20 anos após a morte dele.

No livro, ele conta que foi ao médico e que, quando entrou, este falou para ele: “Se você tivesse chegado um pouco antes ia encontrar seu colega, Mário de Alencar”. E daí ele pergunta: “Mas Mário de Alencar está doente?”. E o médico: “Mas você não sabe? Ele é epilético”. Daí ele diz: “Epiléptico? Mas como?”. E o médico: “O pai dele é”. E Humberto de Campos pergunta: “O pai dele?” E o médico: “O pai dele é Machado de Assis”. Curiosamente, todas as cartas de Mário de Alencar para Machado de Assis começavam assim: “Meu querido papai”. Todo mundo tomava isso como se fosse uma demonstração de apreço apenas. E tem uma coisa: Mário de Alencar não tinha obra para entrar na Academia. Entrou por força de Machado de Assis. Ele impôs a vontade dele. Ele era amigo de José de Alencar, que era casado com uma inglesa, e nunca ninguém soube de nada. Se você reler Dom Casmurro pensando nisso, verá o livro de outra maneira. Glauber Rocha tem uma frase genial: “José de Alencar é um rio caudaloso, Machado de Assis é uma bica d´água”. Está aberta a questão.

EL – O senhor escreveu muito para o público juvenil, mas pouco se fala sobre essa produção, apesar de tantos exemplares vendidos. Como o senhor descobriu esse leitor?

CONY – Eu estava muito bem no Correio da Manhã, era editorialista, colunista, eu tinha talvez naquela época, senão o maior, um dos maiores salários da imprensa brasileira. No embate político, perdi tudo. E fiquei sem emprego, pois ninguém me dava emprego. Então, o editor da Tecnoprint, Jorge Carneiro, naquele tempo não era Ediouro, me convidou para fazer adaptações. Fiz mais de 50. Daí eles me pediram originais. E eu comecei a fazer, sob pseudônimo. História de amor é o meu livro que mais vende. Está na 39ª edição. Outro dia, fui para o Ceará para uma palestra, achei que ia falar de política, mas não. Havia umas duas mil meninas perguntando sobre o livro. Eu nem me lembrava da história. As perguntas me salvaram!

EL – O senhor escreve crônicas diárias, tem uma rotina que inclui palestras no Brasil inteiro...E está sem tempo para continuar o “Messa”. Já pensou em parar de novo?

CONY – Sou um homem que, com essa idade, está no mercado. Pensei em parar, às vezes penso que estou trabalhando demais, escrevendo muita crônica. Intelectualmente, não me acrescenta mais. Posso fazer uma obra-prima, ou uma porcaria. Quer dizer, se eu fizer muitas porcarias seguidas vou me comprometer, não é? Vão dizer que estou decadente, esclerosado! Mesmo que eu faça uma obra-prima um dia naquela coluna de dois mil caracteres, algo equivalente à Odisséia, já pensou? Cony conseguiu colocar Homero no chinelo! Mesmo que eu faça isso, a mim não me acrescenta. Mas eu sou profissional... Como o palhaço velho. Até o dia que ele começa a cair no chão. Mas todo mundo acha que faz parte do jogo do palhaço velho. Olha como ele cai bem. É um gênio. Esquece das coisas, diz besteira em público! Aliás, Saramago, que é um autor que eu não leio, disse certa vez que o escritor é um palhaço, um bobo da corte. Acho que ele tem razão. Somos bobos da corte. Dizemos verdades, mas somos bobos da corte.

 

Trecho de Messa para o papa Marcello

Olhando tudo em conjunto, houve momentos em que também me diverti com a vida, sobretudo quando sentia que a vida se divertia comigo. No dia em que, tentando tocar um prelúdio de Frescobaldi, decidi improvisar e comecei a tocar aquilo que me parecia escalas em tom maior. De repente, surgiu um fiapo de melodia e eu a persegui, achando que estava criando alguma coisa parecida com um oratório.

O professor que me dava aulas – um padre gordo e meio sebento, que aproveitava o intervalo para comer uma banana – olhou espantado para mim e perguntou:

— Onde você ouviu isso?

Ia responder que nada ouvira, que tentava seguir uma seqüência de notas que me pareciam corretas, a melodia surgira sem querer, sem que eu a buscasse.

— Mas isso é o “Gloria” da Messa Pro Papa Marcelo!

Nunca ouvira esta música, sequer sabia que existia uma peça com esse nome e muito menos com aquela melodia – se é que podia chamar de melodia a sucessão de notas que eu julgava improvisar.

O padre acabou a banana, ia jogar a casca no chão, pensou um pouco, não havia nenhuma lata de lixo, nem uma janela. Meteu a casca no bolso da batina e se aproximou do teclado. Corrigiu a posição de minha mão esquerda e, aos poucos, foi se apoderando do banco, expulsando-me com o seu corpo que sempre cheirava a suor e a cebola – além das bananas, tinha mania de comer cebolas cruas, inteiras.

Fez uma variação complicada, mudou o tom maior para o menor, fechou alguns registros e abriu outros, respirou fundo e engrenou a melodia justo no ponto em que começava a série de “laudamus te, veneramus te, adoramus te”.