Revista Press Brasil edição 31
25/3/2006
 
“É preciso dizer que não sou político”
CARLOS HEITOR CONY
Cony no seu escritório
É mole? Carlos Heitor Cony escreve oito crônicas por semana. No único dia de folga na página 2 da Folha de S.Paulo, escreve para o caderno Ilustrada do jornal. E tem mais uma crônica semanal para o Folha On line. Ainda sobra fôlego para fazer palestras: nos últimos 15 dias de março, foram oito, em cidades tão distantes do seu Rio de Janeiro como Brasília, São Paulo ou Porto Alegre. Deve entregar um novo romance até o final do ano. É por isso que diz “estou no mercado”.

Por Gustavo Previdi

Apesar disso, encontrou tempo para nos atender e contar um pouco de sua história, iniciada em 14 de março de 1926. Ele foi o terceiro de quatro irmãos, teve uma educação católica e cogitou de ser padre. Desistiu e foi ser escritor e jornalista. O Ventre, de 1959, foi o primeiro romance. Em 1973, escreveu o que pretendia ser o último, Pilatos. Porém, retornou ao gênero, com Quase Memória, de 1995.

Já era um cronista respeitado, aos 38 anos, quando houve o golpe de 1964. E ele, que nunca tinha escrito sobre política, fez uma crônica debochada sobre o golpe. Vieram outras, tão importantes que foram reunidas em O ato e o fato, a ser relançado.

Demitiu-se do Correio da Manhã por causa de uma crônica criticando o Ato Institucional n° 2, em 1965, que teria gerado atritos entre a direção e a redação do jornal. Trabalhou em TV, morou em Cuba em 1967, onde participou do júri do concurso literário promovido pela “Casa de las Américas”. Quando retornou ao Brasil, em 68, foi preso. Liberado, passou a trabalhar na revista Manchete, da Editora Bloch, escrevendo crônicas e reportagens internacionas. Reuniu muitas em livros, além de publicar traduções. Em 1993, voltou à imprensa diária, substituindo Otto Lara Resende na Folha de S.Paulo.

Foi uma cadela, a Mila, presente de Adolpho Bloch, que possibiltou a volta ao romance. Esta é uma história comovente.

Diz que não gosta de política, mas até sua entrada na Academia envolveu debate político.

Entre seus fãs também há polêmica, revela: quem gosta dos seus seus livros detesta suas crônicas, e vice-versa.

Confira as opiniões dele e responda sinceramente: quem gosta das entrevistas de Cony gosta das crônicas ou dos livros?

Cony em seu escritório no Rio

PRESS: Nós estamos fazendo uma edição especial sobre os 40 anos do golpe militar. Mas vamos começar a entrevista com alguns dados biográficos.

CARLOS HEITOR CONY – Tenho 78 anos, nasci em 14 de março, sou jornalista desde 1952. Tenho três filhos, sou casado.

PRESS: A famosa pergunta: onde você estava em 31 de março de 1964?

CHC: Estava em casa , no posto 6, em Copacabana. Fui com o Carlos Drummond de Andrade, que era meu vizinho, até o Forte de Copacabana, assistir às operações. Foi o último reduto que ameaçava uma reação e a Artilharia de Costa dizia que ia resistir, defendendo o governo João Goulart. Mas não houve resistência. Houve um movimento qualquer e isso foi tema da minha primeira crônica, que publiquei no dia 2 de abril, no Correio da Manhã, contando este fato. Foi uma crônica debochativa do movimento. Uma crônica zombando, gozando aquele aparato militar. A crônica criou muito caso porque, evidentemente, os militares não gostaram e também a maioria da nação estava a favor do golpe. Hoje em dia se tem uma noção errada. Se houvesse um referendo no dia 2 de abril, eu acredito que a população apoiaria o golpe. Só mesmo um grupo muito pequeno seria contra. Depois foi aumentando, progressivamente.

PRESS: O próprio Correio da Manhã tinha publicado dois dias antes os editoriais “Basta!” e “Fora!”...

CHC: Exatamente. O jornal era abertamente antijanguista. Mas tinha uma tradição liberal, e quando veio o golpe de 1º de abril, eu chamo de 1º de abril, eu tive condições de fazer um texto, não criticando o golpe, mas gozando o golpe. Mas também me sentindo covarde. Eu terminei a minha crônica dizendo que sentia na boca um gosto azedo de covardia. Já no dia seguinte comecei a criticar abertamente o movimento militar já em termos de conteúdo. E não me arrependo até hoje.

PRESS: Mas você tinha idéia de que aquele ato e aquele fato, que até geraram uma crônica e um livro teu, durariam tanto tempo?

CHC: A Objetiva vai reeditar “O Ato e o Fato”. São as minhas crônicas do Correio da Manhã que a Civilização Brasileira reuniu num livro que saiu em junho, ou julho, de 1964. Não mexi nada. Vai sair também pela Companhia das Letras um depoimento meu sobre a revolução. O título do livro é “Vozes do Golpe”. Escrito a quatro pessoas: eu, Scliar, Verissimo e Zuenir Ventura. É mais ou menos o que estou fazendo aqui. É preciso dizer que não sou político, não tenho uma atuação política. E não sou homem de esquerda, nem de direita, nem de centro. Detesto o centro, detesta a direita, acho a esquerda um aglomerado de imbecis. Aliás uma frase minha está neste livro, O Ato e o Fato: “A esquerda é um aglomerado de imbecis”– era naquela época e hoje, mais ou menos, continua sendo. Eu sou um anarquista inofensivo, e se a esquerda tivesse dado o golpe e cometido a mesma truculência da direita eu estaria do outro lado. Eu vi violência, meus amigos todos na cadeia, pessoal indo para o exílio, pessoal escondido e eu achei que era uma coisa anti-humana, e daí a minha veemência. Tanto que fui processado pelo Costa e Silva. Fui o único jornalista daquela época que foi processado.

PRESS: Quantas vezes você foi preso?

CHC: Fui preso seis vezes, sem ser da esquerda. Imagina se fosse. Eu peguei um processo com o Costa e Silva, que foi duro, tive que passar um ano e meio fora do país. Não tinha condições de trabalho aqui. Disso não estou arrependido. Estou arrependido pelo seguinte: o Brasil não aprendeu nada com isso.

Cony e um dos quadros que pintou

PRESS: Mas imaginava que a deposição do Jango poderia significar 20 anos de ditadura militar?

CHC: Talvez tanto tempo não. Mas há crônicas minhas, daquele período, em cima do lance em que eu dizia algo assim.Termino o “O Ato e o Fato” com uma crônica dizendo que talvez fosse para os nossos netos, uma coisa assim. Eu achava que iria demorar, que não ia ser curto, não. Talvez não 21 anos, eu não sou profeta, não tenho vocação, nem é meu ofício. Mas eu achava que o negócio tinha raiz. É preciso ver o seguinte: o contexto da “guerra fria”, e sobretudo a sociedade brasileira, a classe média brasileira, a mídia brasileira, o empresariado brasileiro, a Igreja brasileira, todos eram a favor do golpe. Isso é que é verdade. O pessoal esquece hoje. O pessoal confunde o 64 com 68. Em 68 a situação estava diferente.

PRESS: Havia uma demonização do comunismo..

CHC: Não só do comunismo, mas uma demonização da corrupção. E havia uma esperança, porque os militares eram uma classe privilegiada. Eram mais ou menos como o PT é hoje: “O PT é bom, o PT é santo”, achavam que os militares dariam solução para tudo. O que é um engano. É uma classe despreparada. Assim como o PT é uma classe despreparada para exercer o poder, a classe militar é uma classe despreparada para exercer o poder, embora tenha qualidades. Tanto o PT quanto a classe dos militares têm: são patriotas, são honestos, isso não se discute, mas não têm preparo para o poder. Os militares, nem antigamente, nem hoje, estão preparados para exercer o poder. A sociedade é muito complexa e não pode ser administrada nem pelos militares nem por partidos de escalão. Neste particular, então, eu achava que havia germens de permanência do golpe. A Igreja, as Forças Armadas, classe média inteira, a mídia inteira, tudo a favor do golpe, tudo contra João Goulart, tudo contra as reformas, tudo contra o fantasma do comunismo. Tudo ligado, mais ou menos umbilicalmente, à estratégia do Departamento de Estado (dos Estados Unidos) que estava interessado em impedir uma nova Sierra Maestra.

PRESS: Você também achava isso naquela época?

CHC: Eu não achava nada, porque eu não sou político. Em 64 eu já tinha alguns anos de jornalismo, de crônica inclusive, crônicas assinadas no Jornal do Brasil, na Folha de S.Paulo, no Correio da Manhã. Eu não escrevia sobre política, escrevia sobre cinema, teatro, literatura, comportamento, mulheres. Eu não tinha tempo para perder com política. Mas quando eu comecei a ver que a política deixava de ser política para invadir o meu cotidiano, no sentido de ter amigos meus presos, de eu próprio ser perseguido, minha família ameaçada de seqüestro , enfim... Aí, mexeu comigo. Então política virou um “faites divers”. Quando outros jornalistas e outros jornais começaram a escrever também, eu deixei de escrever. Voltei aos meus assuntos.

PRESS: Como a redação do Correio da Manhã reagiu nos dias posteriores ao golpe?

CHC: Neste depoimento que vai sair pela Companhia das Letras eu digo que quando cheguei à redação, no dia 2 de abril, notei o pessoal muito temeroso. A minha crônica se chamava “Da salvação da pátria”. Não era uma crônica contra a revolução. Mas era um gozação, até violenta, até meio caricata. Todo mundo chegava e dizia “cuidado”, “vai haver problema”. Mas não recebi nenhuma repreensão. A crônica era uma gozação mas não entrava no mérito da revolução.

PRESS: Você percebeu algum arrependimento do pessoal do Correio da Manhã, no decorrer dos anos, em relação à posição daqueles editoriais, “Basta!” e “Fora!”?

CHC: Não. O Correio da Manhã, como todo, mudou porque tinha uma formação liberal. Mais ou menos até certo ponto, posso dizer, sem falsa modéstia, que o Correio da Manhã acompanhou a minha idéia. Uma posição sem nenhum compromisso com o governo anterior, sem nenhum problema de interesses contrariados, mas levando aquele princípio dos valores humanísticos. O Correio da Manhã também abraçou esta causa. Depois foi entrando pontualmente, e aí, vários jornalistas – Otto Maria Carpeaux, Marcito, Hermano Alves – entraram mais pontualmente, mais em cima de detalhes, que, não sendo jornalista político e não tendo a formação política muito precisa, eu atirei lama no ventilador indiscriminadamente, sem pensar nisso ou naquilo. Depois vieram pessoas já entendidas no assunto, experts no assunto e falaram com mais autoridade. Agora, o desabafo inicial, a revolta inicial foi minha realmente.

Cony folheia um de seus livros

PRESS: Você lembra em quem votou para presidente, em 1960?

CHC: Em sempre votei em derrotado. Quando houve a disputa entre Juscelino (Kubitschek, eleito em 1955) e Juarez Távora, eu votei no candidato do Partido Socialista, o João Mangabeira. Ele teve, parece, 0,8% dos votos. Depois votei no Brizola, no Lula, duas vezes. Nessa última eleição não votei em ninguém. Em 60, não votei nem no Lott, nem no Jânio. Votei num terceiro, ou votei em branco, não lembro bem. Eu nunca elegi um presidente. Só elegi até agora uma pessoa, um vereador aqui no Rio, foi o Ari Barroso, em 1947. Porque realmente eu não sou político, não sei quem é bom, não sei quem é mau. Votei no Ari porque era uma boa pessoa, era torcedor do Flamengo, músico. Eu era um fã dele, sabia que ele ia ser eleito vereador, votei nele e foi eleito.

PRESS: É coincidência você tenha sido preso seis vezes e casado seis vezes?

CHC: Exatamente, é coincidência. As prisões são fixas, são as feridas. Os casamentos são meio flutuantes.Se eu for contar direito...

PRESS: Não chega a ser uma paródia que o casamento é uma prisão, ou uma doce prisão?

CHC: Não. Casamento tem direito a bolo, velinha, champanhe Georges Aubert? Existe ainda?

PRESS: Existe.

CHC: Agora é prosseco. Antigamente era champanhe Georges Aubert. Era um champanhe popular, gaúcho. Casamento com direito a tudo isso.

PRESS: Voltando um pouco no tempo. Você queria ser padre, entrou para o seminário.

CHC: Entrei para o seminário aos 10 anos e fiquei quase 10 anos. Queria ser padre, realmente.

PRESS: Por que desistiu?

CHC: Eu não tinha fé. Descobri que não tinha fé. Queria ser padre, mas sem fé. Achava muito bonita a profissão de padre, batina, missa em latim, eu gostava de tudo isso. Gostava muito da Igreja do Concílio de Trento, o ritual, as músicas.

PRESS: Você era religioso?

CHC: Não, eu não era religioso. Eu tinha só o lado teatral da Igreja. Achava isso bonito, cheiro de incenso, as velas. E ao mesmo tempo era uma ponte com o passado, com a civilização, latim. Mas quando eu vi que para ser padre precisava realmente ter uma formação cristã, acreditar em Deus, acreditar numa moral, comprar um briga, aí eu vi que não poderia ser e seria insincero da minha parte continuar no seminário. Um padre sem fé é horrível.

PRESS: Foi aí que você se aproximou dos existencialistas?

CHC: Não. Eu continuo apreciando muito o lado teatral da Igreja, embora o Concílio de Trento tenha sido reformulado pelo Concílio do Vaticano, com missa em português, essas coisas todas atuais, mas sempre que posso, sobretudo quando estou na Europa, onde tem muitas missas no rito antigo, eu gosto de assistir à missa, sem rezar. É uma atração que eu tenho, talvez mórbida, mas eu gosto. Agora, não tenho fé nenhuma. Também não fui existencialista no sentido clássico. No tempo do seminário, este termo, existencialismo, era um réprobo. Mas também não tive muita atração pelo existencialismo, embora o meu primeiro romance, O Ventre, tenha sido muito influenciado pelo Sartre. Não o Sartre pensador, o Sartre romancista.

PRESS: Da Náusea...

CHC: Você falou bem. O Ventre é um livro surgido de uma leitura de A Náusea e talvez também um pouco do Machado de Assis.

PRESS: Então, o Cony é apolítico, arreligioso...

CHC: Quando eu tomei posse na Academia me expliquei um pouco – é uma tradição, a gente elogia os antecessores, faz parte do ritual, eu fiz o registro dos antecessores, mas depois também a tradição manda que a pessoa se explique um pouco. E nesta explicação eu disse que não tinha disciplina para ser de esquerda, não tinha convicções fortes para ser de direita e também me recusava, por uma questão de temperamento, ao centrismo, que é oportunista. Tanto que o centro embarca na canoa errada da maioria. Se o vento vai para a direita, ele vai para direita, se o vento é da esquerda, vai para a esquerda. O centro talvez seja até o mais desprezível. Aí, eu me pergunto: não centro de direita, não sendo de esquerda, não sendo do centro, o que eu sou? Então eu me defino como um anarquista humilde, triste, inofensivo. Isto faz parte do meu discurso na Academia. Vale para mim como uma espécie de declaração.

PRESS: Mas a temática dos seus primeiros romances é deste teatro da Igreja Católica. Por que parou com esta linha?

CHC: Isso me marcou muito. É o caso de um autor que me impressionou muito, não é romancista, mas me influenciou muito, foi Ernesto Renan, que hoje está fora de moda. Ele também foi seminarista no Saint Supice. Aliás, o metrô parisiense que serve o Saint Supice hoje tem o nome do Renan. Hoje virou nome de estação de metrô. Mas ele também não se formou. Também abandonou e perdeu a fé. E o Renan dizia que ele passou a vida toda untado dos santos óleos. A gente fica untado. Agora, evidentemente, não deixa de ser apenas uma coisa superficial, epidérmica. A minha religião é epidérmica. Profundidade eu não tenho nenhuma. Nem na religião, nem na filosofia.

PRESS: Por que depois de Pilatos você resolveu “lavar as mãos” e dizer que não escreveria outro romance?

CHC: Eu achava que não tinha mais nada para fazer. Tinha lavado as mãos. Daí que eu considero Pilatos meu melhor livro. Ele é uma despedida. É como um trono. O rei não tem direito a falar do trono? Eu sou rei do meu próprio reino. A fala do rei é aquela feita no início do ano, ao parlamento. Eu falei do meu trono, lavando as minhas mãos. Fiz ver que o Pilatos entrou neste ponto e não tinha nada a ver com a história. Passei 23 anos sem fazer ficção. Voltei a fazer ficção talvez por uma questão de velhice. Passei um período muito bom da minha vida. Foi o melhor, quando deixei de escrever.

PRESS: Coincidiu de ser o melhor?

CHC: Problema de idade. Eu tinha 42 anos, casamento, muita viagem. Dinheiro. Queria aproveitar a vida e não ia perder tempo fazendo literatura. Quando eu voltei à planície, a literatura sempre dava um certo disfarce. É um engodo. Se eu não tapeio os outros, eu tapeio a mim mesmo.

PRESS: O primeiro romance de Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, foi escrito quando morreu o avô dela. Você voltou a escrever por causa da Mila?

CHC: Não foi por causa dela. Ele e o computador foram importantes. O computador pela facilidade de escrever. Eu estava cheio de escrever em laudas, a gente vai mudar tem que trocar aquela lauda, rebater tudo, embora minha máquina de escrever fosse elétrica. Paralelamente a isso, a doença da Mila, fase terminal, me fez ficar noites e noites acordado. E eu sem ter nada para fazer. É um momento em que realmente dá aquele branco. Eu tive uma ligação muito profunda com a Mila e não queria dormir, porque se ela via que ia dormir começava a gemer. Com uma dificuldade terrível ela se levantava, ficava passando a mão em mim, para me acordar. Ela não queria que eu dormisse. Então, o jeito que eu tive foi engatar uma história. Quando ela morreu, eu botei ponto final e o Ruy Castro leu o original e levou para o editor à minha revelia, praticamente, e publicou o livro, Quase Memória.

PRESS: Conta um pouco desta história dos cachorros. Você não gostava de cachorros?

CHC: Eu tinha pavor de cachorro. Um dos remorsos que eu tenho era isso. Minha mãe gostava de cachorro, e enquanto eu pude impedi que ela tivesse um. Quando me casei, e não morava mais com ela, ela teve vários cachorros. Quando eu ia visitá-la, eu telefonava dizendo “prende os cachorros, senão não vou aí”. Minha mãe, coitada, prendia os cachorros para poder receber a visita do filho. Para você ver como eu não gostava de cachorro.

No caso da Mila, não. Ganhei ela do Adolpho Bloch quando era pequena. Ele botou em cima da mesa e me disse: “Dá um nome para ela”.

Eu estava fazendo uma matéria sobre o levante do gueto de Varsóvia, que teve como endereço “Myla 18”, que é um romance do Leon Uris. Myla 18 era o endereço de um prédio que havia em Varsóvia, na rua Myla, em que comunistas e judeus fizeram o levante do gueto. Enquanto o nazismo esteve dominando a Europa oriental, o único levante que houve foi o de Varsóvia, produzido pelos comunistas e pelos judeus. Em outros países, curvaram a espinha e se submeteram. Em Varsóvia, não. E a Gestapo foi inclemente, destruiu tudo, matou a ferro e fogo. Foi uma chacina terrível. Eu estive lá, fazendo uma matéria sobre isso, e fotografei a rua Myla. Os russos só reconstruíram a parte ímpar, para não haver outra Myla 18. Então, havia a Myla 17 e a Myla 19, não havia a 18, porque não havia número 18. Eu estava com o slide da rua Myla. Olhei para a cachorrinha e disse Mila. Minha mulher gostou do nome, o Adolpho gostou, todo mundo gostou. Eu sobretudo, gostei muito. E ela mudou muito minha vida.

PRESS: No que ela mudou a sua vida?

CHC: Mudou a minha rotina, porque meus filhos já estavam criados e voltei a ter um bebê dentro de casa. Ela tinha muita empatia. Eu não sabia que cachorro tinha uma sensibilidade muito grande para saber a gente. Eu acho que o cachorro, possivelmente porque não é articulado com palavras – as palavras servem para esconder pensamento –, não pode esconder sentimentos. Não há cachorro cínico, nem cachorro mentiroso.

PRESS: Tem gente que tem mais facilidade de se relacionar com os bichos que com as pessoas...

CHC: Sem dúvida nenhuma. Aquela frase, quando vi a primeira vez achei exagerada, mas hoje aceito: “Se o teu melhor amigo não gosta do teu pior cão, livra-te do teu melhor amigo”. Acho esta frase perfeita. O pior cão é melhor do que o melhor amigo.

PRESS: O cachorro é tão amigo que o cachorro de bêbado nunca larga o bêbado.

CHC: Não é só isso. O miserável, o homem embaixo da ponte, o cachorro não larga. Em vi uma vez em Frankfurt, onde não há mendigo na rua. Numa calçada tinha um mendigo, de seus trinta e tantos anos, barbado, sujo, morando na calçada. Era estranho porque é numa cidade sem mendigos, ninguém pedindo esmolas, aquele camarada me chamava a atenção. Ele tinha um cachorro. Algumas pessoas quiseram tirar o cachorro e o cachorro não saía, ficava com o dono.

Cachorro não abandona o dono. Não quer saber se o dono é criminoso, entendeu? O Hitler teve um cachorro fiel. Uma pessoa normal não seria amiga do Hitler até o fim. Mas o cachorro dele foi fiel e morreu junto.

PRESS: Têm os casos de cachorros que ficam até a morte do dono, fica velando o corpo.

CHC: Não sei em que cemitério da minha terra tem uma estátua do cachorro que, quando o dono morreu, todo mundo foi ao enterro e voltou para casa. De noite, o cachorro fugiu e foi para a sepultura dormir com o dono, em cima da sepultura, e morreu congelado. Enquanto os filhos e mulher foram dormir no quentinho, o cachorro não conseguiu dormir, foi onde estava o dono e morreu por causa do frio.

PRESS: Então a Mila afetou você bastante, emocionalmente.

CHC: Emocionalmente não, mas especialmente. Dentro da minha formação pessimista ela me abriu uma estrada, uma janela.

PRESS: Aquela janelinha do Ernesto Sábato, de “O Túnel”?

CHC: Exatamente. É uma luz vinda do túnel. Gostaria muito, se tivesse uma reencarnação, de voltar como cachorro.

PRESS: E aquela história de “troque seu cachorro por uma criança pobre”?

CHC: Isto é demagogia. Criança pobre, evidentemente, tem necessidade. Mas a criança tem o Estado para cuidar dela. O cachorro não tem culpa de o Estado não tratar bem seu cidadãos. Por exemplo, menino de rua. A sociedade instituída recolhe impostos da gente para impedir essas coisas. Não impede por erro dos homens. A humanidade é ruim. Cachorro, não. Cachorro é diferente. Uma criança pobre tem vários donos. Cachorro só tem um dono. Depois, tem uma coisa, você não escolhe o cachorro, o cachorro é que escolhe você.

PRESS: Você acha que a Mila escolheu você?

CHC: Sim. Tanto que eu devolvi a Mila dias depois ao Adolpho Bloch, e quando eu saí ela entrou no meu carro, sem que eu pedisse. Vi aquele bichinho entrando dentro do meu carro, querendo voltar comigo, trocando, digamos assim, o paraíso ecológico que o Adolpho tinha lá em Teresópolis pelo meu apartamento na Lagoa, que é bem modesto.

PRESS: Hoje, você tem cachorro?

CHC: Não tenho, pelo seguinte. Não consegui ser fiel a nenhuma mulher, a nenhum deus, a nenhuma causa, mas sou fiel à Mila.

PRESS: Sobre a Academia de Letras, ser imortal. Isso mudou alguma coisa na sua vida?

CHC: Não mudou nada. Durante muito tempo recebi apelos para me candidatar. Fui quase lançado duas ou três vezes à minha revelia, e sempre recusei.

Mas houve circunstâncias que motivaram minha candidatura. Eu entrei numa briga que não era minha, era da Academia. Quando morreu o Dias Gomes, o Roberto Campos se candidatou pela terceira vez. E eu vi um movimento da esquerda nacional, mas mais aqui do Rio, de que não se podia votar no Roberto Campos, que os acadêmicos iam queimar o fardão, iam jogar merda na Academia. Eu achei aquilo uma imbecilidade muito grande, se fosse acadêmico não votaria no Roberto Campos. Mas achava que era um direito do Roberto Campos se candidatar, como é de qualquer um. E não provocar aquela onda de que seria o fim do mundo se Roberto Campos, já derrotado duas vezes, fosse eleito. Enfim, esta supervalorização não só da Academia mas também de uma posição ideológica. A vaga do Dias Gomes era de comunista, o antecessor dele, Adonias Filho, era integralista. Álvaro Moreira era comunista e foi sucedido por um integralista. Então, não havia por onde levar para o terreno ideológico dentro de uma associação que não tem nada a ver com isso. Eu também não tinha nada a ver com a casa, não era acadêmico. Eu deixei bem claro que se fosse acadêmico não votaria no Roberto Campos, mas ele tinha este direito, e se a Academia eleger o Roberto Campos está elegendo alguém inteligente. Sozinho, Roberto Campos é muito mais inteligente que quase toda a esquerda brasileira. Nisso, morre o Herberto Salles. Aí, à noite, me ligam da Academia dizendo “esta vaga você vai ter que tomar, porque de uma forma ou outra você está defendendo a Academia”. E eu vi que era verdade isso. Sem ser chamado, eu estava tomando uma atitude que não me pertencia. Aí o próprio Roberto Campos ligou para mim dizendo que seria bom eu me candidatar e tal. Mas muita gente deixou de votar em mim. Os idosos da Academia, gente que me botou no colo, conhecidos do meu pai, esta gente não votou em mim, porque achou que eu estava defendendo o Roberto Campos. Eu não estava defendendo as idéias do Roberto Campos, estava defendendo os direitos de um intelectual se candidatar a uma casa de intelectuais. E foi assim que eu fui eleito. Já fora do tempo, tinha mais de 70 anos, e não modificou em nada a minha vida, nem era para modificar. Se fosse para modificar a minha vida eu não teria entrado.

PRESS: Hoje, aos 78 anos de idade, quais são os seus desafios, o que movimenta a adrenalina, o que faz você levantar todas as manhãs?

CHC: O trabalho. Nesta idade toda estou no mercado. Me telefonam, faço palestras, vou ao Sul fazer uma palestra junto com o Scliar, o Verissimo e o Juremir. Vou a Brasília, a São Paulo, enfim, só este mês tenho uma agenda de oito palestras. Nos jornais, escrevo todos os dias. Na minha idade, acho que sou o único jornalista com esta atividade. Eu não faço coluna. Porque coluna para mim é uma coisa, é o Boechat, é Ancelmo Góis, são grupos de pessoas que um colunista assina, com vários informantes. A minha é crônica mesmo, e faço todo dia. Sexta-feira eu folgo na página 2 da Folha, mas escrevo na Ilustrada.

PRESS: Como foi substituir o Otto Lara Resende naquele espaço?

CHC: Eu já tinha trabalhado na Folha antes, em 64 fazia crônicas, revezando com Cecília Meirelles. Depois parei, porque fui para fora, fui para Cuba e fiquei fora do jornalismo. Voltei e fiquei fazendo crônicas para a Manchete, semanal. Também fazia matérias, reportagens, muita coisa internacional. Depois, quando voltei para a Folha, realmente foi difícil, porque o Otto Lara tinha um charme violento e eu não tenho o charme dele, mas estou no mercado. O Otto ficou com uma coluna uns dois anos, mais ou menos, eu já estou há 11 anos. Escrevo todos os dias, além disso tem uma na Folha on line. São oito crônicas por semana. s

PRESS: Você não tem disciplina para ser de esquerda, mas tem disciplina para escrever?

CHC: Também não. É muito fisiológico. Até escrevi isso numa coluna do dia 16 de março na Folha On Line. É necessidade fisiológica, não tem nada de ideológico. Não sou criança. Sei o que estou dizendo.

PRESS: Já escreveu alguma coisa que não gostou?

CHC: Já. Na realidade, eu não sei, pelo seguinte: infelizmente, eu sou uma pessoa que está escrevendo demais. Não pensava que eu ia escrever tanto. Alguns autores tiveram este problema. O Thomas Mann, por exemplo, dizia isso: “Depois do Dr. Fausto eu deveria ter morrido”. Não morreu e continuou escrevendo. Eu não sou Thomas Mann, evidentemente, nem chego aos pés, mas também achava que poderia ter parado no Pilatos. Então, é o problema de escrever muito, há muita coisa que eu repudio.

E tem uma coisa: a minha obra de ficção tem um caminho completamente diferente da minha obra de jornalista. Daí que, em geral, as pessoas que gostam dos meus romances detestam minhas crônicas. E vice-versa: as pessoas que gostam do meu lado panfletário abominam os meus romances.

PRESS: São dois Conys que escrevem?

CHC: Aí está o problema. Se fossem dois, seria ótimo. Mas é um só. Não é como o “Médico e o Monstro”, que tomava um remédio para virar monstro. Eu faço isso naturalmente, sem tomar remédio nenhum.

Eu sinto isso pelo retorno. Mas eu sou assim, o que vou fazer?

PRESS: Você está escrevendo algum romance?

CHC: Eu tenho que entregar um romance no fim do ano, para a Editora Planeta.

PRESS: Com é escrever por encomenda? Você recebe o tema?

CHC: Não, eu não escrevo sobre tema. As editoras me pedem romance porque a arte toda foi feita de encomenda. A Renascença toda foi feita de encomenda. O Michelangelo jamais pensou em fazer o teto da capela Sistina, o Papa que o botou lá. O Mozart morreu fazendo a Missa Fúnebre, que não terminou. Recebeu dinheiro e não pagou. O Elliot (Thomas S. Elliot, autor inglês, viveu entre 1888 e 1965) escreveu “O Assassinato na Catedral”, talvez a sua peça mais famosa, porque quando se converteu ao catolicismo se comprometeu com o Arcebispo de Londres a fazer uma peça sobre ao problema do bispo que se rebelou ao Henrique IV. O Euclides da Cunha escreveu “Os Sertões” sob encomenda. Verdi fez Aida para inauguração do Canal de Suez. O Niemeyer fez Brasília sob encomenda do Juscelino. Escrever sob encomenda não quer dizer nada. Não dá tema. No caso da Planeta, me pediram três romances. Um para este ano, outro para 2005 e outro para 2006. Mas estou livre para escrever, posso escrever sobre o que eu quiser. Não tenho limitação nem de tema, nem de tamanho.

PRESS: Quando se chega no seu porte dá para viver de literatura brasileira?

CHC: Dá sim. Uma coisa que eu detesto é o amador. Não gosto de amador de espécie nenhuma. Nem de mulheres amadoras. Prefiro as profissionais.